domingo, 21 de fevereiro de 2010

O dilema sadio do profissionalismo x militância

Um dilema ronda todo ambiente organizacional das ONGs. Devemos ser mais profissionais ou mais militantes? Nenhum ator social escapa ileso dessa dicotomia. No entanto, é preciso atenuar a gravidade da questão, relativizando posições radicalizadas e condutas irredutíveis. Ambas as dimensões, necessariamente, coexistem nas organizações e repercutem, em graus variados e oscilantes, na trajetória comportamental de cada pessoal.

Para fins didáticos, é interessante distinguir os atributos típicos desses dois perfis: enquanto os profissionais evidenciam características técnicas, racionais e previsíveis; os militantes põem em relevo aspectos políticos, emocionais e instáveis. O primeiro, por se preocupar mais com condições objetivas e padrões mensuráveis, tende a ser mais detalhista e cauteloso em suas intervenções. Já o segundo, por focalizar seu olhar em torno de processos de mudança e disputas ideológicas, acaba sendo mais generalista e ousado em suas empreitadas.

As pessoas que lidam diretamente com as comunidades e populações devem fazer prevalecer seu lado militante, inclusive para que suas palavras e mobilizações possam tocar o coração e atingir mais facilmente a consciência dos públicos abordados e parceiros acionados. Afinal, é preciso falar a língua de tais grupos, demonstrar atitudes inspiradoras, conquistar sua confiança e engajá-los para abraçar as causas com as quais se identificam.

Por sua vez, as pessoas que atuam no interior da organização, no âmbito técnico ou administrativo, são instadas a cultivar um maior rigor profissional, em função mesmo da natureza das tarefas sistemáticas que lhes cabem executar. Sem menosprezar sua parcela de idealismo, a burocracia operacional que pauta suas rotinas de trabalho já é suficientemente grande para atrair sua atenção, direcionar suas energias e consumir seu tempo.

Uma organização social que se preze não pode descartar dois ingredientes essenciais: paixão e resultados. Agir sem sentido, sem tesão, sem visão, acabaria por esvaziar e até matar a alma social da instituição. Ao mesmo tempo, atuar sem prazos, sem regras, sem controles, terminaria por instalar o caos, minando qualquer possibilidade mínima de gestão e sacrificando com o passar do tempo sua capacidade efetiva de funcionamento.

Dilemas, todo mundo (e suas organizações) tem, mas alguns deles existem para o bem. E o verdadeiro dilema profissionalismo x militância é honrosamente um deles. Retirá-lo dos debates ventilados pela sociedade civil é, no mínimo, “partidarizar” um universo que só encontra harmonia quando pluralmente regido pelas duas forças vitais referidas: a paixão, para mudar os cenários desafiadores que enfrentamos; e os resultados, para garantir que nossos esforços estejam sempre avançando no terreno perceptível da realidade.

BLOG Vencer Juntos
"A mudança só depende de nós"

Nenhum comentário:

Postar um comentário